sábado, 21 de junho de 2008

Rio de Janeiro, 40 graus

A claridade incendiava os seus olhos enquanto o vento de feição escrevia seus passos. O sentimento de tocar os pés na areia, que há muito não sentia, tocou a sua alma. Respirou fundo o cheiro salgado que vinha do mar. Aquele cheiro tinha gosto de liberdade, tinha gosto de prazer.

O vento rodopiava seus cabelos, sem rumo, sem direção. Ela gostava dessa sensação. O vento tinha cores, impressionantemente, cores de todas as cores. Cores de alegria, cores de infância e bossa n´roll, que traziam todos os sentidos a um só: o de estar ali.

Ela trajava os seus passos, enquanto pregava cada vez mais firme pé ante pé nas dunas de areia.

Sua pele tocou o mar, e com ele, tocou seu corpo. Não era mais a mesma, a imensidão havia mudado. O som absoluto de suas vozes havia mudado, ela agora escutava todos os sons do mundo no canto do vento. E eles falavam alto. Se sentia abençoada.

Todos caminhavam com ela; naquele momento, ela era todos e uma só.


O Rio tem gosto de quê?

Tem gosto de sal. Tem gosto de mar. Tem gosto de língua que alisa a pele.
A pele desnuda, a carne viçosa das mulatas de samba, do burburinho dos passos, que gingam ao som. O som do vento, vento de cores multicoloridas no vôo da gaivota rajante. Céu esculato de paisagem, guardião dos sonhos e segredos da gente do mundo, do riso sem pressa, da vida boêmia, da noite de luz.


A alma é leve, a vida não tem medo de seus próprios passos. Ela dança ao luar, marejado de pegadas na areia. Pegadas traçadas com o suor do corpo e a benção de Iemanjá.



2 comentários:

Anônimo disse...

Minha filha, para mim, que sempre acreditei muito em você (embora implacável crítico), ainda é surpreendente o tanto de bem que você vem escrevendo. Ando assustado e encantado com seus textos. Com seus recursos de linguagem. Nesse último senti um alinhavado interno, não explícito ou presente nas palavras, que me tocou muito. Um lirismo apenas intuído. Um toque vindo sem saber de onde e sem saber por quê. É verdade, também, que sempre amei o mar, sempre amei o vento. E sempre amei você. Mas mesmo assim. Sua foto está ótima. Beijos. Pai.

Cherrie disse...

"Ó, Pai amado, quanto do seu sal são lágrimas de Portugal... Valeu à pena? Tudo vale à pena se a alma não é pequena..."
Meu leitor mais assíduo que amo muito!
Beijos enormes!